sexta-feira, 25 de abril de 2025

Destino e disposição

 


Eu gosto dos meus drinks amargos, quase sem açúcar. Assim como me ensinaram que a vida deve ser.

Ele gosta dos seus com muito açúcar e

pimenta. Intenso, como ironicamente sempre fui. 

E no fundo, para mim, ele é calmaria. Contraponto. 

Se sou caos, difícil e cansativo, ele é paciência.

Se sou vulnerável, ele é proatividade.

Se sou força e constância, ele é calmaria, relaxamento.

Não somos um para o outro. Não fomos feitos um para o outro.

Somos um encontro.

De gente destinada e disposta.

Sinceramente, não acho que um exista sem o outro.

E eu o amo.

E sou amada.

E isso é tudo que basta.

Longe, ainda que perto, das amarras e convenções, somos a nossa própria família, nosso jeito, nossa língua, nossa pátria.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Escovação

 Às vezes, por uma fração de segundo, me olho no espelho e sei exatamente quem eu sou. E sinto orgulho.

Essa sensação passageira se condiciona permeada por uma imensidão de inseguranças e incertezas sobre o eu e o mundo.

Porque nunca sou só eu.

Ainda que viva plenamente momentos de solitude e contemplação. Carregada de experiências ancestrais e coletivas.

Não sou "só eu".

Mas eu estou por aqui e acolá. Deixando minha marca na esperança única de que seja positiva de qualquer maneira a quem quer que seja.

Seja eu quem quer que seja.

Naquele momento breve, escovando meus dentes frente ao espelho. 

Quase ignorando as cicatrizes do tempo bem vivido. Sempre a beira do excesso.

Transbordo. 

Cuspo.

Enxáguo.

Sorrio.


domingo, 19 de janeiro de 2025

Domingou



Dia de folga. Abri um vinho para preparar o almoço. Sem pressa, lavei as batatas e as coloquei inteiras para cozinhar na temida panela de pressão - posso dizer com o orgulho de um adulto premium que há muito perdi o medo de usa-la, porém ainda estou aprendendo a fazer a manutenção correta para que ela funcione sem problemas, então fico apreensiva até perceber que está correndo tudo bem.
O próximo passo foi fazer o molho, uma adaptação do patê de alho ensinado por minha mãe, que na minha versão é feito com leite vegetal e tofu, além de alho, limão e sal batidos no liquidificador. Quando tudo já está bem misturado, coloco óleo vegetal em fio para dar liga, da mesma forma que se faz maionese.
Quando as batatas já estavam cozidas, cortei-as no meio e com um garfo raspei de leve a casca de cada uma, as colocando em uma assadeira forrada com sal grosso. Raspei também a parte virada para cima, para acomodar melhor o molho. Salpiquei páprica defumada em cima de cada uma, colocando junto metade de um tomate cereja em cada uma. Em algumas coloquei uma folha de manjericão fresco ou uma rodela de azeitona.
Assim que foram para o forno, o vinho já se aproximava da metade - sinceramente, tomar "uma taça" de vinho não é meu forte. Fiz umas palavras cruzadas e organizei a cozinha, tempo para que as batatas saíssem gratinadas do forno, perfeitas. Tomei o resto do vinho enquanto comia, orgulhosa de ter feito uma refeição tão prazerosa de comer quanto foi de fazer. No dia-a-dia, sempre me canso de cozinhar. Me canso de meu tempero e me sinto sem criatividade para variar. Mas nesse dia de folga me senti inspirada. Concluo que sair da rotina é essencial, ainda que seja para algo tão trivial quanto fazer uma refeição diferente aos domingos.



sábado, 11 de janeiro de 2025

Todos os casais são improváveis?

 Não somos feitos um para o outro. Não existe felizes para sempre. E, não, esse não é um texto amargurado sobre o amor. Pelo contrário.

Fui assistir ao seu jogo de futebol em um pequeno campeonato. Acho bonito como seus olhos brilham e seu rosto se ilumina já no aquecimento. Sua criança interior transparece, contemplada em chutar a bola de lá para cá com seus colegas.

Nunca fui esportista. Minha criança interior se desespera com o barulho das torcidas e gritos dos jogadores, a iluminação e os cheiros do ginásio me sufocam. Fiquei feliz por ter levado comigo um livro, sai e procurei por um banco distante o suficiente para abafar, mas não calar totalmente os barulhos do ginásio porque queria saber quando o jogo dele estivesse para começar.

Mais tarde conversamos sobre isso. Sobre as satisfações, insatisfações e nostalgia que esse evento nos trouxe, a partir de nossas diferentes vivências e percepções. Sempre que esses assuntos vêm à tona, brinco dizendo que não seríamos amigos na escola, ao que ele zombeteiramente responde que é provável que não, dada nossos 3 anos de diferença de idade, o que inconscientemente complemento com a distância entre nossas cidades de origem.

Então, a despeito de tudo isso, um dia nossos caminhos se cruzaram para valer. Em uma cidade na qual viemos para cursar a mesma universidade, porém em cursos e anos diferentes. Improvável, mas não impossível. 

Como num filme clichê em que o atleta e a nerd se apaixonam em circunstâncias improváveis. Só que ao contrário, no contexto em que nos aproximamos não havia essas demarcações evidenciadas em nossas personalidades e o que nos uniu foram nossos pontos em comum.

Afinal, àquela altura da vida já havíamos nos libertado das caixas etiquetadas em que somos colocados e/ou nos colocamos. Então quando digo que não somos feitos um para o outro ou que não existe felizes para sempre, quero dizer que não somos feitos para ninguém em específico e que o que existe é o dia após dia. É preciso que se entenda que somos o que somos em nossa plenitude sozinhos para podermos nos acompanhar.

Cada um veio de um contexto, de uma experiência única e contínua. Se nada é para sempre é porque nós não somos seres estáveis e nossas vidas ímpares nos trouxeram até aqui. Então, talvez, todos os casais sejam mesmo improváveis. Pela soma mágica das probabilidades e coincidências que levam a uma união (e não faço ideia que soma é essa, nunca fui boa em matemática também).








sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Boa volta

 E num ímpeto, decidi voltar.

Já fazem mais de 5 anos que não posto nada por aqui. Sabe o que aconteceu nesse tempo? UMA PANDEMIA. Uma m*rda de uma pandemia que nos prendeu em casa por malucos dois anos. E nem foi por isso que parei.

Acho que parei ao me formar na faculdade, ou entrar no mestrado, ou perder uma amiga escritora. Pra ser sincera, eu não faço ideia do porque exato, mas parei. Parei de ler livros por prazer, logo parei de escrever por prazer. Vivi outras coisas, mudei drasticamente meus caminhos. Ainda que sempre tenha me sentido desconexa do mundo, acabei me desconectando dessa parte tão importante de mim.

Mas a questão mais importante talvez não seja do porque parei, mas do por que voltar? Pasme, também não tenho a resposta. No meio das resoluções de ano novo, listei hábitos saudáveis para me guiar. Escrever não estava entre eles, porém ler estava. E nesses primeiros dias de 2025 venho devorando um livro deliciosamente, então me veio o ímpeto não só de escrever, mas de publicar. 

"A biblioteca dos sonhos secretos" de Michiko Aoyama, foi um presente que recebi 2023. Deixei exposto em minha estante por achar a capa linda, esperando o momento em que tomaria fôlego para lê-lo e finalmente esse momento chegou. E não poderia haver momento melhor.

Bom, não vou me alongar. Esse é só um alô para sinalizar um novo começo por aqui, já que me ocorreu até mesmo criar outro blog ou escrever em outra plataforma (eu nem sabia se ainda existia por aqui). Mas há uma beleza nostálgica em retomar o Pequeno Frasco que tem me acompanhado há tantos anos, em tantas fases da minha vida.

Para quem lê, ou para minha futura versão retomando estes textos, boa nova volta - em torno do sol, ou em si.





sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Essa não tem título

Você quer se jogar, não quer?
Quer subir o mais alto que puder para ver o sol se pondo
e se jogar
para não precisar ver mais nada.

Você quer que tudo acabe,
mas de forma bonita.
O problema é que finais dificilmente são bonitos,
os meios também não o são.

Você quer se jogar,
mas não pode.
Você tem um papel, tem pessoas
e não se se sente a vontade

em causar mais destruição.
Quer causar menos,
quer tornar as coisas belas,
quer colorir o mundo,

mas sumiram com seus lápis de cor.
O que sobrou são cinzas,
mas não se jogue ainda,
muito sangue já foi derramado.

Sangrar não faz diferença,
se jogar não faz diferença,
viver talvez o faça.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Poesia de reconhecimento

Eu não sei bem
para onde eu vou,
mas sei muito bem
de onde eu vim.

Vim da água doce do Rio
que me faz chorar quando seca.
De onde o peixe pára
e nada contra a correnteza.

O peixe não desiste
Resiste
Morre
Mas não se rende.

Na terra do sol
eu me formei.
Me tornei eu.
Virei gente e coração.

Mais coração do que gente.

Porque eu sei
muito bem de onde eu vim.
Eu vim da casa de esquina
de meio lote.

Eu vim da periferia
e eu tive o privilégio
que a periferia não teve
de sair de si.

A duras lágrimas eu vejo o mundo,
eu vejo as pessoas
e seus valores invertidos.
Confusos.

Eu não vi muito do mundo.
Mas vi o suficiente
para saber o que deve ser prioridade
e o que é velada maldade.

Peixe fora d'água eu sempre fui.
Descobri que posso ser cardume
E nadar contra
a correnteza também.

Pés no chão, tatuagens que representam de onde vim e onde estou.