terça-feira, 23 de outubro de 2018

Poesia de reconhecimento

Eu não sei bem
para onde eu vou,
mas sei muito bem
de onde eu vim.

Vim da água doce do Rio
que me faz chorar quando seca.
De onde o peixe pára
e nada contra a correnteza.

O peixe não desiste
Resiste
Morre
Mas não se rende.

Na terra do sol
eu me formei.
Me tornei eu.
Virei gente e coração.

Mais coração do que gente.

Porque eu sei
muito bem de onde eu vim.
Eu vim da casa de esquina
de meio lote.

Eu vim da periferia
e eu tive o privilégio
que a periferia não teve
de sair de si.

A duras lágrimas eu vejo o mundo,
eu vejo as pessoas
e seus valores invertidos.
Confusos.

Eu não vi muito do mundo.
Mas vi o suficiente
para saber o que deve ser prioridade
e o que é velada maldade.

Peixe fora d'água eu sempre fui.
Descobri que posso ser cardume
E nadar contra
a correnteza também.

Pés no chão, tatuagens que representam de onde vim e onde estou.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Amor, desamor e depressão

Setembro passou voando e em meio ao caos e as reviravoltas que a vida dá, acabei não fazendo meu post anual sobre o Setembro Amarelo, a campanha de conscientização e prevenção do suicídio.

Mas como a própria campanha prega, nunca é tarde para falar sobre como nós nos sentimos.

Vou falar então sobre como minha vida mudou depois que eu parei com o antidepressivo, já que foi na última fase da terrível descontinuação que escrevi no ano passado.

Não estou curada da depressão, acho que uma vez tocado pela depressão nossa percepção de mundo nunca mais será a mesma e, por isso, não acredito que realmente se possa falar em cura - e essa é a minha perspectiva, baseada na minha experiência, não sou nenhuma especialista, mas as pessoas com quem já conversei e que também foram tocadas pela depressão, costumam concordar comigo nesse ponto. O que muda, então, é a forma de encara-la e lidar com ela. Os remédios me ajudaram e muito, não nego, mas a sensação de estar dopada, e não necessariamente melhor, me incomodava muito, por isso busquei outras maneiras de me sentir melhor.

Foi um período de muito autoconhecimento, quando encarei minha solidão e ela me encarou de volta. Primeiro eu a amei com todas as minhas forças, me metendo em um relacionamento abusivo com minha própria solidão, como foram todos os meus relacionamentos anteriores, até eu estar exausta novamente. Foi então que passei a buscar na identificação com pessoas que pensam e sentem de maneiras parecidas com a minha fechar o ciclo vicioso de autodestruição.

Olhando para tudo isso e me aprofundando no que estudo, a sociedade, eu percebo que o meu problema não é exatamente sobre ter depressão. É um sentir demais, se afetar demais e, principalmente, me matar pouco a pouco ao tentar me adaptar as mais variadas visões distorcidas de mundo e de amor.

Eu sempre disse que o amor é o grande tema da minha vida, mas só recentemente percebi que eu sou amor, e sempre serei amor. Primeiro tive que aceitar minhas verdades, por mais que doam e doem, porque nem todo mundo é e, principalmente, nem todo mundo é capaz de entender as dimensões desse amor. Percebendo que minha dor é reflexo do desamor, e não do amar demais, como pregam os indiferentes, deixei de me negar a sentir e entendi que era justamente nessa negação que se encontrava meu problema. Porque eu nunca deixei realmente de sentir, mesmo ao me negar, mesmo destroçada. Negar meu sentir como mecanismo para fugir das minhas dores era negar a mim mesma, e isso dói muito mais.

Então optei por amar. Optei por sentir e chorar as dores do mundo. Durante muito tempo a depressão e a pressão social me fizeram acreditar que eu não era capaz de sair do lugar. Mas minhas próprias lutas me fizeram acreditar que sou sim. Eu saí da minha zona de conforto traçada pela depressão e viajei sozinha, morei sozinha, estudei sozinha. Eu me abri para o mundo e mundo me mostrou que na realidade eu não estou sozinha, eu nunca estive. Eu só estava no lugar errado, às vezes física e às vezes mentalmente.

Agora sinto que estou no lugar certo, ou pelo menos no caminho certo. Tenho dias bons e dias ruins. Hoje particularmente estou num dia ruim, dado às condições do mundo que me afetam e me puxam para baixo. Mas mesmo assim, me sinto bem comigo mesma e tenho a paz necessária para dormir a noite sabendo que procuro cada vez mais viver de acordo com aquilo que eu acredito e aquilo que eu sou, que é o amor.

E assim eu sigo, sabendo que tudo vai ficar bem, mesmo que não fique.

💛🎗️

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Empoderamento próprio

A capacidade de se amar vária. Uns dias mais, outros dias menos. Sempre me preocupei muito com a perfeição, até descobrir que ela é inatingível e mesmo depois, ela ainda me assombra. Eu quero amar cada curva, cada mancha, cada pelo, cada espinha, cada estria e celulite, cada pedacinho desproporcional e fora do padrão.
Eu quero me amar. Sabendo que eu não sou um pedaço de carne, que não preciso da aprovação de ninguém e que não quero agradar homem nenhum e nem me comparar a mulher nenhuma, pois somos únicas e maravilhosas a nossa própria maneira. Quero aceitar a minha própria maneira. Eu quero me amar e me reconhecer como a mulher que sou, sem buscar aquela que me disseram que eu deveria ser, que me puxa para baixo numa espiral de fracassos e submissão. Eu mereço ser, amar e ser amada como a mulher que sou. E você também, mana. Todas nós ♀
Eu sei que parece fácil, pra uma mulher branca e relativamente magra publicar uma foto e um textão desses (esse texto foi publicado originalmente no meu Instagram @mariliarital), mas ainda assim não é. Ainda assim me sinto a sombra de padrões estéticos, e mesmo morais, difíceis de quebrar.
Não deixe que a sociedade te imponha seus padrões e suas convicções. Não caia na falácia patriarcal de que "sempre foi assim" ou se deixe sucumbir pelo machismo nosso de cada dia. Nós somos e podemos muito mais, eles só não querem que saibamos disso.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

(Des)romantize




Amor sempre foi e provavelmente sempre será o grande tema da minha vida. Com tempo, com os tropeços e os estilhaços em que tantas vezes me transformei por amor, descobri e tomei para mim uma verdade que precisa ser compartilhada: não foi por amor. Foi pela romantização do amor ideal. Por isso eu digo, e grito se for preciso:

É preciso desromantizar o amor para poder amar de verdade.

E digo mais, esse é um exercício constante. É se lembrar a todo momento que se relacionar com quem quer que seja requer responsabilidade e reciprocidade, sabendo que a outra pessoa, por mais próxima que pareça em idéias e gostos, é um outro ser, com outras vivencias, outras formas de ver o mundo através de suas próprias emoções e razões construídas ao longo de uma série de venturas e desventuras, assim como você, como eu.

É preciso, principalmente, desromantizar o sofrimento, o sacrífico que pode ser estar com alguém. Desromantizar as brigas, os jogos psicológicos que nem sempre temos noção de que estamos jogando, mas jogamos o tempo todo. É preciso desromantizar a noção de que o amor é capaz tudo, que cura tudo, que supera tudo. Esse amor vendido nos filmes e nos livros, pregado aos sete ventos a todo momento, não é real.

Na realidade somos apenas seres humanos em busca de algo, ou alguém, que torne nossa própria experiência nesse mundo mais real e mais suportável.

Então ame. Ame quem e como for. Só não ame pela idealização patológica que nos ensinaram sobre o amor.

terça-feira, 12 de junho de 2018

Dia dos solitários

Hoje é dia dos namorados, mas eu, ao contrário, hoje quero falar sobre solidão.

Sobre como a solidão me ensinou a ser mais forte, mais independente, mais eu. Estou falando sobre a solidão que a gente sente mesmo quando está rodeado de pessoas, mas também, e principalmente, sobre se permitir ser sozinha. Sobre se encarar e perceber que você pode ser completa e segura sozinha, que você é perfeitamente capaz de se cuidar, de se aceitar por inteiro.

Sei o quanto isso soa como um clichê de auto-ajuda, mas pelo contrário, não estou dizendo para me ouvir, estou te convidando a se ouvir. Foi encarando meus próprios silêncios que finalmente pude me entender melhor e me fortalecer. E o aprendizado nunca pára.

Me ensinaram a temer a solidão. Me ensinaram que eu preciso ter alguém para ser feliz. E vou te contar outro ensinamento que minha solidão me trouxe: talvez eu precise mesmo. Mas não é como se minha vida dependesse de outra, é mais como se eu não pudesse ser mesma sem outras pessoas com quem compartilhar meu ser.

A crença doentia de um amor idealizado me perseguiu e me machucou a vida toda, até que enfim eu pude compreender que não preciso de uma alma gêmea em um sentido romântico e sexualizado, de uma única pessoa que vá me completar, me resolver, me curar. A única pessoa capaz de tudo isso, sou eu mesma.

Com isso em mente posso estar com alguém que me contemple e me transborde. Que, assim como eu, respeite a sua e a minha solidão. Bem como posso compreender e fugir de relacionamentos tóxicos antes que me consumam.

Por isso no dia de hoje quero brindar, antes mesmo do amor, a solidão.

Que todos possam, ao menos uma vez na vida, contemplar e aprender com a sua.

E só então, desejo um feliz dia dos namorados, que contemple todas as formas de amor, mas acima de tudo, o próprio.


domingo, 13 de maio de 2018

Mãe

Obrigada por me permitir
ser eu mesma.
Obrigada por estar comigo
na saúde e na doença,
física e psicológica,
na felicidade e na tristeza.

Meu meu mundo faz sentido contigo.
E eu sempre vou tentar ser
o melhor de mim por você.

Eu poderia escrever
mil poesias para você,
mas nenhuma delas
traduziria o que eu sinto agora.

Talvez baste apenas
uma palavra,
gratidão.


quarta-feira, 25 de abril de 2018

Amor líquido

É sempre uma transição.

De um gostar para outro gostar. Me pego dando um sorrisinho bobo para mais alguém. Quando alguém parte o coração da gente e ele ainda continua batendo, é sinal que a gente deve seguir em frente, se abrir para outros olhares e outros risos, outras expectativas, outras inseguranças e medos, por que não? Gostar sempre terá seu lado bom e seu lado ruim. Eu me apego ao bom. Me apego justamente a esses risinhos bobos e as borboletas irritantes em minha barriga. Eu não espero nem correspondência, porque gostar de alguém já me faz um bem. E a gente bem sabe que não se escolhe o gostar de quem. Por isso, na maior parte do tempo, guardo para mim esse bem tão valioso. Porque quando a gente se abre, se arrisca, sempre tem muito a perder. E eu não quero perder nada. Nem posso perder o que não tenho. Pode parecer covardia, ou até egoismo, mas de tão castigada pelas palavras, aprendi a gostar em silêncio. A gostar para mim e pra mais ninguém.

Se me der um mínimo, te darei sempre meu máximo. Te farei feliz porque isso me fará feliz. Até o dia em que o mínimo será muito pouco, te darei meu olhar triste e cansado e te deixarei aos poucos,  sem que você nem perceba, ainda em silêncio, até o próximo gostar. Sei que algum dia alguém pode quebrar este ciclo vicioso de amores mal começados e mal acabados, ainda assim ficarei surpresa. Até lá, as decepções e as insuficiências me levarão até o próximo. Me farão mais forte e mais sozinha. Talvez até mais segura e completa, mas com certeza, mais silenciosa.


Foto de Manoel Almeida (@metsalmeida), Piracicaba, 2018

quarta-feira, 7 de março de 2018

Female

A gente muda

Com o sentido do vento
Do rio ou cachoeira

A gente muda com a maré
Com o sol e as nuvens
Com a mãe lua

A gente muda com as pessoas
E as pessoas mudam a gente

Desata os nós
Aprende a viver só

A gente sente
O sentimento do mundo
O sentido de tudo

E a gente se dói

E a gente se fecha

E continua

Piracicaba, 2018