quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Envelhecer

Adoro gente que me faz sentir uma adolescente boba, mas odeio quando me tratam feito criança, apesar de ter plena convicção de que vou ser pra sempre uma. Uma criança crescida, vivida, não aquela aquela criança sabichona que tinha tanta pressa de crescer. E não cresci muito, pelo menos por fora, mas por dentro, há por dentro só eu sei o tanto que eu cresci, e ainda cresço, quero crescer pra sempre. Ainda que já seja um pouco experiente nessas coisas da vida, sei que só envelhece quem pára de crescer, e eu não quero nunca envelhecer. Não quero ficar uma velha chata e rabugenta. Por fora, já faz um bom tempo que parei de crescer e comecei a envelhecer. A gente envelhece desde o momento em que damos nosso primeiro suspiro, fadados a mortalidade. Hoje as unhas crescem, o cabelo cresce, cresce a flacidez, mas de tamanho mesmo não cresço mais. Por isso aprendi a crescer por dentro, porque é o nosso espírito que não deve nunca envelhecer, nem parar de crescer.

A gente tem muita pressa. Pressa de crescer, de amadurecer, pressa de comer, pressa de chegar, de partir, de mudar, de passar... Quando a gente pára e repara que no meio dessa pressa toda, não é que tudo aconteceu? Não é que dá vontade de voltar a ser criança? A gente tem pressa de ser de maior, tirar carta, dirigir, beber, sair, parece que essa idade nunca chega. E quando chega, voa. E de vez em quando a gente cansa, porque o tempo não é mais o mesmo, o ânimo não é mais o mesmo, o fôlego e o corpo já não são mais os mesmos. E de vez em quando, a gente quer voltar. Voltar a infância, voltar a adolescência, mas com a maturidade que temos hoje pra poder aproveitar muito mais. Pra poder ter menos pressa. Pra ter menos preocupações.

Já reparou como as coisas ficam fora de proporção quando passam? Os problemas gigantes de antes, são meras formigas perto dos de agora. Assim como as responsabilidades, os limites e os sonhos que a gente tinha. A moda quando passa é ridícula. Não acredito que vestia aquilo, não acredito que fiz tanto escândalo pra tomar a vacina, não acredito que dancei aquela dança no carnaval, não acredito que chorei tanto por aquela pessoa. Nossos mundos vivem desabando por coisas bobas, a gente só não sabe o quanto são bobas até que as superemos.

Ah, a gente sempre supera. Quem não supera, pára e fica pra trás. Quem não supera envelhece, por dentro e por fora. A gente precisa superar. Superar os medos, os limites, as dores, as coisas e os momentos ultrapassados - repare que o próprio termo já diz "utra" "passado", ultra-mega-super-passado, não tem mais uso. Superar é desapegar, assumir que já não te pertence. A gente precisa superar essa pressa de qualquer coisa. A pressa de ter e a pressa de ser.

Envelhecer por fora é natural, é inevitável, é bonito até. Rugas e flacidez contando histórias de um espírito que continuou jovem, que não teve pressa, que superou o que te envelhecia por dentro. Se por fora não dá pra evitar, a alternativa é aceitar. É se manter jovem por dentro, crescendo, até o último suspiro. Não tenha pressa. No final das contas, ela só vai te levar ao mesmo fim de tudo que se conhece. E a pressa impede que se tire o máximo proveito do que se encontra pelo caminho até lá.


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Luz acesa

Gosto das coisas assim, as claras. Luz acesa, portas abertas, intenções claras e verdades expostas, sem medos nem ilusões. Expectativas são geradas das ilusões, e são elas destruidoras de corações. Não, prefiro uma verdade que doa do que uma mentira boa.

Não entendo de gente que mente, que finge, que foge. Encaro a realidade de frente, doa a quem doer, dói mais sempre em mim. Ainda assim, eu prefiro. Prefiro olhos nos olhos e franqueza na voz. Prefiro um não sincero do que um sim meio incerto.

Na verdade é tudo bem simples, não tem porque complicar. Me olhe nos olhos e tenha coragem de me encarar, com minhas verdades e meus instintos. Tão transparente que chego a ser misteriosa, e nem sei dos mistérios que carrego dentro de mim.

Mas eu gosto de gente que tem coragem de ser assim, simples em toda sua complexidade. Em toda complexidade e o caos do mundo. Às vezes eu tomo direções contrárias, às vezes me calo quando deveria falar e falo demais quando é mais certo me calar. Às vezes eu falho onde mais desejo acertar. 

O fato é que não existem respostas certas ou respostas erradas. Nem existem meias verdades ou mentiras bem intencionadas. Sinceridade se carrega no olhar. Olhar de gente corajosa que não tem medo de errar e acertar e concertar. Gente que de tão transparente, não encontra lugar nesse mundo doente onde possa se encaixar.

"Não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas agora..." (Legião Urbana)