quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Saudades de mim

Às vezes eu sinto saudade das outras de mim.

Da de semana passada, 
da quarta-feira anterior, 
da segunda quinzena de julho, 
de agosto de 2012.

Algumas eram felizes, 
outras tristes, 
algumas conformadas, 
algumas rebeldes, 
ou plenas, 
ou foda-se.

Elas vão se esvaindo de mim. 
E nem tudo tem um fim.
Mudam os dias, 
os meses, 
as estações, 
os lugares, 
a paisagem,
muda a cena, 
muda a música, 
muda a sintonia e a sincronia.

Fica a essência da vontade de mudar, 
de nunca parar, 
de não desistir.

Fica um sentimento que não cabe em mim.

domingo, 17 de setembro de 2017

5 mg

Passei muito mal a noite passada.

Coração acelerado, dificuldade para respirar, incapacidade de me mexer e de dormir, mesmo estando exausta.

Já falei bastante aqui, pouco abertamente, sobre a depressão. Mas dessa vez não se trata disso, não se trata de um ataque de pânico nem de ansiedade. Se trata de outra coisa: abstinência. Bati meu próprio recorde, quatro dias sem paroxetina. E mesmo durante essa crise, consegui me manter calma, respirar fundo e colocar na minha cabeça que sem pânico, tudo ia ficar bem quando eu acordasse no dia seguinte. E realmente, tudo ficou bem. Tomei 5 mg hoje para ficar bem e enfrentar a vida depois de uma noite tão difícil, porque não preciso aguentar tudo de uma vez.

Foram 6 anos de tratamento e pelo menos dois anos de descontinuação. Muitas vezes achei que não fosse conseguir. Pensei em me render, aceitar que talvez fosse depender desse remédio para o resto da vida. Mas tudo isso fez parte do meu processo de aceitação. Se hoje eu consigo falar abertamente sobre isso é porque aceitei minha condição. Aceitei que fosse como fosse, o que importa é me sentir bem.

Estou compartilhando esta experiência porque há um ano fiz um post aqui sobre o Setembro Amarelo, que para quem não sabe é uma campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio (mais informações no link). Aquele texto foi muito difícil de ser escrito, porque falar sobre a depressão é muito difícil. Viver e reviver a depressão é muito difícil. Mas eu também gostaria de falar sobre como melhorei no decorrer deste ano. Recebi alta da medicação, real oficial, e estou lidando com a última etapa da tão sofrida descontinuação, mas só porque eu estou realmente bem para lidar com ela.

Tudo tem seu tempo. Por mais que há um ano atrás isso parecia um clichê desesperador que eu continuava repetindo para mim mesma, sem encontrar sentido nenhum, hoje eu sei que é verdade. Leve o tempo que for, tudo vai ficar bem. Tudo está bem, mesmo que não esteja, porque tudo bem não estar bem. Fale sobre isso, fale com sua família, seus amigos, seu psicologo, fale comigo, com o CVV (Centro de Valorização da Vida - tel. 141).

Mas nunca deixe a dor te sufocar, porque eu prometo: vai passar.



terça-feira, 29 de agosto de 2017

De volta ao jogo

Tempos difíceis pedem medidas desesperas, é o que dizem.

Parece que é isso que fiz nos últimos anos. Precisei me afastar não somente das coisas que me puxavam para baixo, mas também das coisas que me faziam bem, precisei me esvaziar para finalmente submergir, me entendendo e me impondo.

Aquele velho sonho de me encaixar já era. Eu não sou mesmo e nem pretendo ser o que esperam de mim, porque aquela criança promissora que eu era nunca se encaixou nos padrões e foram tão doloridas as podas que acabei, inclusive, perdendo o rumo daquele futuro brilhante ao que parece.

Mas estou me reencontrando. E me reconectando. Aos poucos, porque tudo na vida são processos.

E eu não tenho mais tanta pressa. Não tenho mais tanto medo do futuro. E não é que incrivelmente as coisas tem dado certo? É assustador, confesso. Porque foi tão difícil chegar até aqui que eu nem acreditava mais ser possível buscar o que eu realmente quero e acredito. 

A gente ouve tanto dizer que devemos correr atrás de nossos sonhos, viver nossos sonhos, não desistir, não se deixar levar... Mas não é tão simples. Eu nunca, nem nos meus melhores dias, me imaginei chegando até aqui.

Mas enfim, estou de volta. De volta a escrever, de volta ao teatro, de volta a batalha pelas coisas que eu acredito e pelo jeito que quero viver minha vida. Não vou prometer constância, porque né, não é esse o ponto. Mas estou correndo atrás. Estou com projetos novos e maravilhosos e projetos antigos com pessoas maravilhosas que não me deixaram desistir - leia-se Idealiizar <3

Basta as penas que eu mesmo sinto de mim
Junto todas, crio asas, viro querubim

[O Teatro Mágico - Cuida de mim]

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Tudo bem

Eu não sei o que estou me tornando. E não me importo.
Apenas sei que estou mais próxima de me tornar o que realmente sou me aceitando em constante mudança. É contraditório e confuso ser eu mesma. Mas eu realmente não me importo. E não quero que se importem.
Estou cansada de vestir fantasias que se adequam a moldes previamente impostos. Essa obrigação de ser feliz e constante não faz o menor sentido. Não há sentido em seguir caminhos que levam a um sucesso idealizado ou a um fracasso imposto por não se alcançar o que nem se quer desejou. Eu não quero ser só mais um. E nem quero me destacar. Eu quero mesmo é me manter de fora. Dar murro em ponta de faca dói demais e de tanto nadar contra a maré me afoguei seguidas e seguidas vezes nela mesma.
Sorte a minha ter sete vidas. Ou dezenas delas, pra sobreviver até aqui e ainda viver tudo que eu quero viver. Porque eu nunca estive tão bem, ainda que eu realmente não esteja nada bem, e tudo bem.
O que eu quero dizer é que não sou obrigada a me adequar a um mundo que não se adequa a mim.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Olá estranho

Olá estranho.

Já faz um tempo que não posto aqui. Tanto, que foi difícil tirar todas as teias de aranha que me impediam de chegar até aqui.
Não que não tenha produzido. Eu estou sempre produzindo, às vezes queria ter uma maquininha de escrever que tomasse nota de tudo que se passa nessa cabeça. Mas não sei se adiantaria. O problema até então tem sido o filtro. A poda. É tão difícil me expor. Estar boa o suficiente, aceitável o suficiente, adequada o suficiente.
É nessa que eu vou me reprimindo, me esquecendo, me adequando. Mas é preciso se impor, sabe? Acatar os sábios conselhos que você dá para outras pessoas. Viver sobre suas próprias regras.
O mundo é ideal para se ser livre? Não, não é. O mundo é como é. Eu sou como eu sou. Se adequar pode não ser uma opção, se aceitar é. E assim que se começa a mudar o mundo, de dentro do seu próprio mundo particular.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Miga

Miga, eu sei o que é se olhar no espelho e não gostar do que vê.
Já me disseram que não parece que eu tenho esses problemas, que eu sou uma pessoa "pra cima", segura de si, bem resolvida, mas miga, não. Não mesmo.
(aquela risada que faz parecer que está tudo bem, mas não, não está)
Você sabe o que é se olhar no espelho e não se reconhecer, não é? Não estar contente com ele te mostra de volta.
E não adianta eu te dizer que você é linda. Não adianta você me dizer que eu sou linda. Mas vamos nos dizer mesmo assim. Vamos nos lembrar sempre.
É que sabe, talvez a beleza seja isso.
Sem essa de beleza é o que está por dentro. Porque por dentro a gente carrega todas as neuras e insatisfações que temos com nós mesmas. Mas miga, eu te juro, você é linda. Mesmo.
Você é linda por completo, com todos os defeitos que você acha que tem.
Sabe o que me disseram? Que a gente tem que se tratar como tratamos nossas amigas. Parece loucura, não é? Se amar, se aceitar, do jeito que fazemos com nossas amigas.
É bizarro o tanto que a gente se cobra. Não é saudável e foge dos padrões do real. Se a gente sabe que o "normal", que o desejável, é tão relativo, porque (insira aqui todos os deuses/ou nenhum deus que você acredita, só pra enfatizar o que eu quero dizer) a gente se cobra tanto? A perfeição, pra não dizer que é inatingível, é se aceitar.
Vamos nos aceitar. Vamos nos amar. Nós a nós mesmas. Se não nós por nós mesmas, quem mais será?
O mundo está todo errado. Os valores, as condições, os pressupostos, até os inimigos eu diria.
Seja sua amiga. Seja minha amiga. Sejamos nós por nós. Porque ninguém, no modo como vivemos, será. Mas já pensou viver de outro jeito? Já pensou que louco se priorizar? Acima do que ditam os padrões, acima do que esperam, do que dizem e do que a gente acha que vão dizer, baseado apenas nessa condição em que fomos criadas para ser. Já pensou que louco poder apenas ser?
Eu já pensei. E ainda assim não "apenas sou". Mas desejo, do fundo dos meus mais profundos desejos, que você seja. Feliz por ser o que simplesmente é. E desejo também ser.